setembro 08, 2005

KATRINA / Reportagem com as vítimas do furacão que devastou Nova Orleães

Os primeiros refugiados da zona de desastre começaram a chegar a Miami esta semana. De maca, amparados nos enfermeiros ou caminhando lentamente, 52 refugiados foram descendo a pouco e pouco da barriga do C-130 que os trouxe ao sul da Florida.

“Durante 13 horas o furacão e eu tivemos uma pequena festa”, recordou William Morgan, un negro de 72 anos que deve a vida à força dos seus braços, que o mantiveram agarrado a uma árvore enquanto a morte dançava à sua volta.

Morgan não foi um evaquado qualquer. Sobrevivente de cancro e com as duas pernas amputadas, transformou-se numa espécie de emblema do grupo.

“Aqueles que puderam, safaram-se. Mas nós, os velhotes e doentes, ficamos para trás. Não havia planos de evacuação”, disse Morgan, antes de ser engolido por uma ambulancia que o levou para o hospital de Veteranos, no centro de Miami.

O seu companheiro de infortúnio, Albert Allen recorda bem os primeiros dias: “Comemos o que pudemos, aquilo que encontramos, nas casas ou... a flutuar nas águas”.

Na sua opinião, a resposta do governo foi muito lenta. “Deviam ter os autocarros preparados logo no dia seguinte”, disse. “Eu ajudei a retirar 4 cadáveres do centro da cidade.

Quando na terça feira o horror começou a sair à superficie, Ray Nagin decidiu que era suficiente e ordenou evacuar a cidade de Nova Orleãns. Não foi uma decisão precipitada, diria mais tarde o agora mais famoso presidente da Câmara do mundo, mas sim fruto de uma reflexão que começou no dia anterior quando as águas começaram a descer de nivel e 22 corpos apareceram amarrados à volta duma árvore.

Os especialistas tinham avisado que a vida na cidade ia começar a ser um inferno – muito maior que a destruição deixada pelo furacão Katrina – quando as águas começassem a ficar contaminadas con um producto quimico altamente intoxicante gerado pela putrefacção de pessoas, animais e algas que começaram a aparecer um pouco por todo o lado.

Neste sentido o maior problema é uma bacteria chamada “e.coli”, extremamente letal, que foi detectada nas águas, disse Julie Geberding, a directora do Centro Nacional de Prevenção de Doenças Contagiosas.

“O presidente da câmara tem muito boas razões para dicidir-se pela evacuação”, disse Geberding, confirmando também o aparecimento de casos de cólera. “Neste momento não é seguro permanecer na cidade e a água é o grande problema. Vão passar meses até que a água de Nova Orleãns seja potável de novo”.

Ele ainda tentou evitar dar a ordem, mas a macabra imagem dos 22 cadáveres – 22 pessoas que numa tentativa desesperada trataram de enfrentar juntas os ventos do furacão – foi demasiado para Nagin.

“Todos tem de ir embora, não há espaço nesta cidade para ninguém. É uma decisão dificil, mas temos de pensar nos que ficaram vivos. A vida tem de continuar, mas para que esta cidade possa sobreviver, todos têm de ir embora”, afirmou.

A 10 dias da passagem de Katrina, 80 por cento da cidade ainda está debaixo de água, os diques ainda não foram remendas e a insegurança continua a ser um problema capital. Nagin calcula que ainda restam na zona entre 5.000 e 10.000 pessoas.

“Não se pode iniciar uma recuperação sem segurança e neste momento não há forma de garantir uma segurança em condições se ainda há pessoas nas ruas”, acrescentou Nagin.

No entanto, há muita gente que não quer abandonar as suas casas nem os seus pertençes, acreditam que podem sobreviver sem electricidade, sem comida e com a água que os militares atiram desde os helicóptros. Mas a situação é tão séria, que num esforço para empurrar as pessoas fora das casas, os militares estão a deixar de “bombardear” as victimas com garafas de água e a polícia está a fazer uma batida casa por casa, muitas vezes a pé com a água pela cintura, para obrigar as pessoas a ir embora.

Mas é uma tarefa difícil, porque a própia polícia também entrou em colapso. Dos 1.500 efectivos que dispunha a cidade antes do furacão, apenas 700 se apresentaram ao serviço. A maioria, simplesmente fugiu horrorizada ante o avanço das águas. Outros preferiram soltar a farda e ficar em casa com a familia. Houve dois, inclusive, que se suicidaram porque não aguentaram a pressão de dias de trabalho sem carros, sem gasolina, sem radios e, sobretudo, sem meios para enfrentar a criminalidade galopante.

“Ontem à noite acabaram-se-me as munições durante um tiroteio. Tive de me ir embora”, disse Michael Jerome, um policia da cidade, ao narrar o enfrentamento com um grupo de saqueadores.

Os militares já entraram na cidade, mas a maioria das patrullas vieram de outras cidades, de outros estados, inclusive, há um grupo que regressou do Iraque, mas não conheçem as ruas, têem dificuldade em orientarse numa cidade inundada, sem pontos de referencia mais além dos enormes arranha-céus, e acabam por dedicar mais tempo a manter a ordem nas filas de evacução dos autocarros.

Dois pilotos de helicópteros foram punidos porque num dos voos de abastecimento de mantimentos à tropa, desviaram-se da rota e dedicaram-se a resgatar pessoas abandonadas nos telhados das casas.

Segundo o The New York Times, David Shand e Matt Udkow pensavam que iam ser recebidos como heróis quando na semana passada regresaram à base de Pensacola, no norte da Flórida, com o orgulho de terem salvo mais de 100 pessoas.

Enganaram-se. À sua espera estava o comandante de operações da base que os puniu por desviarem-se da rota inicial e atrasarem o abastecimento das tropas.

“Nos pesavamos que tinha sido um grande dia porque fizemos o abastecimento mas também resgatamos pessoas”, mas “ o comandante pensa que deviamos estar focados apenas na logistica”.

Este episodio, comentou o New York Times, “ilustra como os esforços de resgate nos dias posteriores ao furacão têem de concorrer com as necesidades logisticas triviais dos militares”.

Rui Ferreira, em Miami
O Independente

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