setembro 09, 2005

KATRINA / E tudo o vento levou

«Um furacão bastou para mostrar de quanta miséria se faz o seu sonho.»

AS catástrofes naturais, quando atingem as dimensões do que assistimos nos estados americanos da Louisiana e do Mississipi, revelam duas coisas: a coesão social de um povo e a eficácia do seu Estado. Depois da desgraça, ficam só milhares de seres humanos capazes ou não de se ajudarem uns aos outros e as estruturas que eles criaram para lhes valer nestes momentos. E, nos Estados Unidos, no Sul da América, não ficou nada.

O Estado não existe. Existe um Presidente e um exército. Como em qualquer país do Terceiro Mundo. E vieram os dois tarde. Um estava de férias, outro no Iraque. O «american dream» é afinal um pesadelo. Os números das Nações Unidas, publicados esta semana, são assustadores. Sendo o povo que mais gasta em saúde, tem uma mortalidade infantil igual à da Malásia, onde o rendimento é quatro vezes inferior. Quase o dobro da portuguesa. Entre os negros de Washington D.C., a esperança de vida é igual à da província indiana de Kerala. Os 5% das crianças mais pobres vivem menos um quarto de vida que as 5% mais ricas.

É pelo que estes números revelam que, na Terra Prometida, quando os ricos ficam sem nada, os pobres tomam conta da rua para buscar o seu quinhão. Quando o vento sopra mais forte e leva tudo, deixa-nos sozinhos. Ou pagámos, antes, a saúde uns dos outros, a velhice de todos, o futuro dos mais pobres, ou sobra só o instinto de sobrevivência. A este instinto, hoje, chamamos leis de mercado. Só que o mercado, quando nos apanha moribundos, faz o que sabe fazer: devora-nos vivos. E cobra pelo repasto. É da sua natureza. É para este velho mundo, tão velho como o mundo, que os mais brilhantes teóricos da nova direita europeia nos querem levar. Um furacão bastou para mostrar de quanta miséria se faz o seu sonho. [EXPRESSO.pt]

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